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iPod, um exemplo de falso negativo

O Henry Chesbrough é um cara muito interessante. Aliás, como alguns gringos que tenho ouvido em palestras, ele tem uma característica muito interessante: a capacidade de não querer mostrar todo seu conhecimento numa palestra só. Com isso, as palestras ficam mais enxutas e aprofunda-se mais naquilo que ele se propôs a falar.

Em 2008 participei de um evento de Open Innovation, no qual o Chesbrough apresentou, com muita propriedade, do que se tratava. Em 2009, mais uma vez, lá estava ele para falar sobre Open Innovation, só que, dessa vez, tive a oportunidade de também participar de um grupo pequeno em um momento reservado com ele após a palestra. Nesse evento conheci sua teoria sobre falso positivo e falso negativo. Aí me veio a pergunta: como ele conseguiu “esconder” essa teoria da gente por 3 anos?

Esse assunto está  sistematizado no livro que escreveu com Vanhaverbeke e West: Open Innovation: Researching a New Paradigm (2006). Como muito bem resumiu minha amiga Ana Pires, da UFBA, em sua tese de mestrado, os autores defendem que o sistema de avaliação de projetos adotado pelas empresas busca identificar propostas alinhadas ao modelo de negócio da organização, ou seja, a avaliação de projetos é condicionada pelo modelo de negócio. Segundo os autores, os processos tradicionais de avaliação vêm sendo conduzidos de forma a evitar Erros do Tipo I – Falso Positivos: projetos aprovados e concluídos, mas que amargam fracasso comercial quando lançados no mercado. A gestão do Erro Tipo II: Falso  Negativos – a rejeição de projetos com potencial de sucesso – vem recebendo pouca atenção das organizações.

É aqui que entra a história do iPod que ele nos contou, que tira um pouco do encanto da Apple, mas nos faz sentir menos inferiores. Aqui recorro a uma ajuda de sites que contam a história do iPod.

Tony Fadell, um ex-funcionário da Phillips, queria desenvolver um novo tocador de MP3, equipado com um pequeno disco rígido, que estaria conectado com um sistema de entrega de conteúdo onde usuários poderiam adquirir e baixar músicas legalmente.

A primeira empresa que ele buscou, no ano 2000, foi a RealNetworks (aquela que produz o programa RealPlayer, que reproduz audio e vídeo digital), onde o CEO, Rob Glaser, já se encontrava no comando de um grande sistema de entrega de conteúdo utilizando os canais de rádio e televisão da Real. A Real não conseguiu entender a necessidade de desenvolver um novo acessório para o seu já lucrativo sistema (como bem falou Chesbrough sobre a aderência aos modelos de negócios). Depois eles seriam pegos desprevenidos quando a loja iTunes foi aberta. Fadell contatou então a Philips e também teve sua idéia rejeitada.

Fadell resolveu então  procurar a Apple, que parecia não estar muito interessada em investir na área de equipamentos eletrônicos, em função de alguns falso positivos nessa área nos últimos anos.  Para quem quiser ver que a Apple não é feita só de sucessos sugiro acessar a matéria “From Newton to Pippin: not every Mac product is made of gold”: http://weirdnews.about.com/od/weirdscience/ss/Apples-Biggest-Flops.htm.

PDA e vídeo game da Apple. Alguém viu isso???

Mesmo assim os executivos da Apple ficaram muito entusiasmados com a implementação dos planos de Fadell e ele foi contratado no início de 2001 para gerenciar um time de desenvolvimento com cerca de trinta pessoas e com um prazo de um ano para lançar um produto de sucesso (Fadell saiu da Apple em março deste ano).

Bom, o resultado todos conhecem. Em 9 meses o iPod foi lançado, como resultado de um grande processo de parceria no seu desenvolvimento (quem sabe isso não vira assunto para um próximo post?).

O que aconteceu com a RealNetworks e com a Phillips é algo muito comum. Boas ideias ou bons projetos não se enquadram naquele momento que a empresa está vivendo e seu idealizador, que acredita que vale a pena investir naquilo, sai em busca de concretizar seu projeto, seja por conta própria ou licenciando para outra empresa.

Enfim, não nos desesperemos achando que as coisas só funcionam fora da nossa empresa. Grandes empresas, em especial, estão mais propensas aos falso negativos, porque é mais difícil alterar seu portfólio de projetos, seja por já ter seu planejamento muito bem definido, seja por questões orçamentárias. Algumas já começaram a perceber essa dificuldade, principalmente quando as ideias não estão completamente aderentes à atividade principal da empresa. Por esse motivo, vem ganhando força a ideia de se criar “filhotes”, também chamadas de spin-offs, para conduzir esses projetos. Mas esse assunto também vai ficar para uma próxima vez.

Até a próxima.

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