Criando condições para a inovação – continuação
No post anterior falamos sobre as pré-condições para a inovação. Relembrando:
1 – Criar tempo e espaço na vida das pessoas para reflexão, geração de ideias e experimentação.
2 – Maximizar a diversidade de ideias necessarias à inovação.
3 – Favorecimento da ligação e troca de ideias – a “química da combinação”, que serve de terreno fértil às ideias revolucionárias.
E concluímos dizendo que isso é importante, mas não é suficiente. É preciso considerar, ainda, que a inovação, muitas vezes, vem “simplesmente” da observação do mundo sob uma perspectiva nova ou através de “lentes” diferentes.
Gibson e Skarzynski, no livro “Inovação. Prioridade nº 1″ chamam de ‘as quatro lentes perceptivas’, ou quatro perspectivas essenciais que costumam aparecer na maioria das histórias de inovações de sucesso. São elas:
1. Desafiando as ortodoxias
2. Tirando proveito de descontinuidades
3. Alavancando competências e qualidades estratégicas
4. Entendendo necessidades não-articuladas
Desafiar as ortodoxias é questionar dogmas profundamente arraigados nas empresas e nos setores a respeito do que impulsiona o sucesso.
O pessoal da IKEA perguntou: “Por que os móveis residenciais têm de ser feitos sob medida e instalados apenas por montadores? Por que não criamos produtos padronizados que os clientes possam levar e montar sozinhos?” . Desafiar também fez a Dell ao vender diretamente ao consumidor, assim como o Linux ao desenvolver uma plataforma de código aberto, ante um pensamento de desenvolvimento proprietário.
Essa estratégia é um enorme desafio para a empresa líder no mercado e uma enorme oportunidade para as que não são e dificilmente serão seguindo o modelo vigente.
Tirar proveito de descontinuidades é identificar padrões despercebidos que poderiam mudar significativamente as regras do jogo. Não se trata de prever o futuro, mas perceber as mudanças e compreender aonde levarão.
Peguemos o exemplo citado no livro. Havia, em 1990, quatro tendências (que até hoje são atuais):
- as pessoas trabalham mais horas do que antes
- o número de famílias de pais solteiros ou separados aumenta
- as pessoas se casam mais tarde
- as pessoas passam cada vez mais tempo online
Craig Newmark resolver criar um site comunitário (www.craiglist.com), um mercado que reúne pessoas com interesse mútuo e que combinam programas mesmo sem se conhecer. Dessa ideia surgiram, por exemplo, os sites de encontros online. Craig percebeu que o cenário era de um crescente isolamento social e criou uma solução para conectar as pessoas.
Alavancar competências e qualidades estratégicas é uma nova forma de ver a empresa, e o mundo, como um portfólio de habilidades e competências ao invés de um fornecedor de produtos e serviços.
A Keen Footwear, empresa de calçados para atividades ao ar livre, tinha apenas a tecnologia patenteada de proteção aos dedos dos pés. Poderia simplesmente ter licenciado a uma grande fabricante de calçados, mas tomou a decisão de concorrer. Contratou um serviço de designers autônomos, fechou com duas fábricas na China para produzir os sapatos e utilizou publicidade baseada em blogs para promover a marca. Resultado: a Keen lançou 16 tipos de sapatos em apenas 2 meses. Impossível? No modelo tradicional, onde “eu” faço tudo, sim.
Entender necessidades não-articuladas significa colocar-se no lugar do cliente, identificando sentimentos não-expressos e necessidades não-atendidas.
A Whirlpool (que no Brasil detém as marcas Brastemp e Consul) costuma visitar a casa das pessoas e estar nos locais de compra para entender os desejos e vontades dos consumidores. É olhar para o usuário ao invés de olhar para o produto.
Alguém se lembra como se lavava o cabelo antigamente? Primeiro o xampu. Depois enxagua e aplica o condicionador. Depois enxagua de novo? Quase. Era preciso esperar o produto agir antes de retirá-lo. Só que as pessoas não tinham mais, e ainda não tem, tempo para essa espera e a Procter & Gamble desenvolveu o famoso dois-em-um: “basta lavar e sair”.
Claro que há mulheres que acham que separadamente é melhor, mesmo que leve mais tempo no banho, especialmente as brasileiras. Mas isso é uma conversa para o pessoal de marketing.
Até a próxima.
