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Você é o que você vê ou você vê o que você é?

Na semana passada um colega de trabalho sugeriu que falasse  sobre as falhas na comunicação empresarial. Aceitei o desafio (onde estava com a cabeça, já que meu tema é inovação?) e me comprometi a escrever algo sobre esse assunto. Mas falar sobre o que especificamente? Afinal….

Depois de alguma reflexão, resolvi começar pela raiz do problema: o ser humano. E nada melhor que falar sobre duas teorias que mudaram (muito) minha forma de ver as coisas: a teoria do observador (neste post) e a ontologia da linguagem (no próximo post). Tomara que os especialistas no assunto me perdoem pelo reducionismo que farei aqui.

Veja a figura abaixo que está rolando na internet (já recebi 4 emails):

Se você ainda não tinha visto essa imagem, muita calma nesta hora! Respire! Agora preste atenção na loira com a máquina fotográfica. E agora? As nádegas da moça de rosa não seriam, na verdade, as axilas da fotógrafa?

Certamente isso é uma brincadeira, uma ilusão de ótica, mas mostra um pouco sobre como as pessoas podem enxergar de maneira diferente uma mesma coisa, o que não quer dizer que ela seja necessariamente a verdade (Xiiiiiii! Acho que estraguei a surpresa do texto. Mas você, como um leitor fiel, vai me acompanhar pelo caminho até a conclusão. Vamos dar um “rewind”. Os dinos lembrarão desse termo, e os novos saberão procurar no google).

Diferentemente de outros seres, o ser humano tem um comportamento de reação ao que acontece, respondendo de acordo como observa o mundo e as coisas que nele habitam. Podemos dizer que somos, enquanto seres humanos, diferentes observadores do mundo, pois o vemos de maneiras diferentes, pois temos experiências de vida particulares.

Para Echeverría e Pizarro, em função de nossa diferenciação como observadores, nosso atuar no mundo também será diferenciado, pois diferentes observadores definem de maneira distinta o âmbito das ações possíveis. A ação humana não é uma variável independente, depende do tipo de observador que cada pessoa é. Ao se conhecer o tipo de observador que uma pessoa é, pode-se antecipar a forma como ela atuará.

A busca por satisfazer nossas inquietudes nos remete a outra característica própria do ser humano, que é o fato de estar constantemente fazendo escolhas que, por sua vez, terão impacto direto no próprio futuro e no de outras pessoas. Assim, o ser humano está constantemente alterando o seu espaço de possibilidades, abrindo-os ou fechando-os. Como nos diz Echeverría, o simples fato de evitar fazer uma escolha, já é uma escolha e é necessário assumir que, se tivesse optado por escolher, algo diferente poderia ter acontecido.

As ações que executamos, ou não, determinam os resultados que obtemos, a nossa qualidade de vida profissional, familiar, afetiva e, inclusive, o tipo de pessoa que somos.  Diante desse quadro, onde as nossas ações dependem do tipo de observadores que somos, bem como os resultados que obtemos na vida dependem de nossas ações, podemos representar, graficamente, a relação existente entre observador, ação e resultado:

Tipos de Aprendizagem (Echeverría e Pizarro)

Antes de analisarmos essa figura, precisamos refletir sobre a concepção da verdade. Echeverría e Pizarro nos convidam a uma reflexão que parece óbvia: “A forma como vemos as coisas é apenas a forma como vemos as coisas. (…) Tendemos a achar que a forma como vemos as coisas corresponde exatamente ao que elas são”. Donde se conclui que se duas ou mais pessoas observam a mesma coisa, elas são um mesmo tipo de observador, mas não que algo seja verdade.

Presumir que o consenso garanta a verdade – considerada como o conhecimento das coisas tais como são – influi em nossa convivência com os demais. Enquanto se mantenha o consenso, a presunção da verdade é inofensiva. O problema surge quando alguém aparece em cena rompendo o consenso e observando as coisas de maneira diferente.

Essa presunção da verdade é algo muito comum ao ser humano, até mesmo como forma de melhor sobreviver no mundo. Para Echeverría e Pizarro “quando conseguimos os resultados que buscamos, a partir de uma determinada forma de observar ou interpretar as coisas, tendemos a supor que essa forma é a verdadeira. Usamos a prática como critério de verdade”.

Ahã! Isto já está começando a ter alguma correlação com a inovação.

Ainda sob a ótica da conveniência do ser humano, a presunção da verdade é prejudicial ao aprendizado, no sentido de que nos acomodamos com as interpretações que fazemos do mundo, deixando, assim de examinar novas oportunidades e buscar novos conhecimentos. (Tá esquentando …..)

A noção do observador nos permite formular uma importante distinção, que é a de separar o fenômeno da respectiva explicação. Em geral, tendemos a confundir a explicação dada sobre um fenômeno com o fenômeno em si.

Quando tentamos fazer determinadas interpretações sobre as experiências que tivemos, é muito comum confundirmos a experiência com a própria interpretação. “Quando isso ocorre, ficamos limitados à interpretação que elaboramos, fato que restringe as possibilidades de considerar não só outras interpretações, como toda uma série de ações que, a partir dessas outras interpretações, poderíamos empreender para dar conta do que nos acontece”.

Se conseguirmos separar o fenômeno da explicação e, conseqüentemente, desapegarmo-nos de determinadas interpretações, estaremos desenvolvendo nossa capacidade de nos adaptarmos com maior facilidade a novas situações e de sermos mais eficientes em nossa atuação.

O tipo de observador que somos acaba por definir o tipo de problemas, de possibilidades e de soluções que regem o nosso atuar e, portanto, a nossa vida. O que é um problema, uma possibilidade ou uma solução para um, pode perfeitamente não ser para outro. (Eis uma boa justificativa para as frustações que ocorrem com programas de ideias)

O observador que somos tanto nos conduz a atuar de uma determinada maneira, como também avalia os resultados gerados por suas próprias ações. Essa avaliação cumpre um papel decisivo em nosso desenvolvimento pessoal, na medida em que define as seguintes possibilidades:

• se os resultados obtidos nos satisfazem: seguimos atuando da mesma forma como temos feito, uma vez que não há pressão para mudar o nosso jeito de atuar.

• Se os resultados obtidos não nos satisfazem: adotamos a resignação ou optamos pela aprendizagem.

A resignação se dá quando consideramos que nada podemos fazer para modificar a situação e, portanto, continuamos atuando como antes. “A resignação pode ter fontes diversas e, em geral, combina emoções e juízos a respeito da situação que enfrentamos. Entre os juízos, dois costumam se destacar nesses casos: um, não sabemos que poderíamos fazer diferente; outro, não temos os recursos ou as competências para produzir resultados distintos.” (Echeverría e Pizarro)

Já a aprendizagem ocorre quando acreditamos que podemos modificar a situação, mudando a forma como atuamos e, com isso, melhorarmos as consequências das nossas ações e gerarmos resultados que antes não éramos capazes de produzir. Aí se abrem duas opções, que vimos na figura mais acima:

a) a aprendizagem de primeira ordem visa expandir a nossa capacidade de ação e, portanto, intervém diretamente no tipo de ações que realizamos. Pode nos orientar, por exemplo, a buscar cursos alternativos de ações ou a adquirir competências específicas para realizar ações para as quais éramos originalmente incompetentes. Esta é uma modalidade reativa de aprendizagem na medida que busca incidir diretamente sobre a nossa capacidade de ação.

b) a aprendizagem de segunda ordem, que surge da teoria do observador, visa transformar a nossa atuação, empenhando-se em modificar o observador que somos. Este tipo de aprendizagem alcança um nível de profundidade muito maior, pois está direcionado àquela parte de nosso ser onde se definem as inquietudes e a maneira como configuramos problemas, possibilidades e soluções. Antes de se preocupar em modificar as ações em si, esta aprendizagem busca, por exemplo, questionar as suposições, as emoções, as distinções primárias, os juízos-mestres, etc., a partir dos quais moldamos nossa atuação.

Vamos parar por aqui. Da próxima vez falarei sobre a linguagem e como ela afeta o modo do ser humano observar e se relacionar.

Ah! A inovação? Pense no “observador” como um funcionário e como a  empresa.

Fui!

Fontes consultadas:

Araújo, L. H. L. Uma aplicação da dinâmica não-linear para avaliação de desempenho de comunidades virtuais de aprendizagem. Além da tela do computador: linguagem, emocionalidade e corporalidade. Brasília: UCB, 2004, 194p

Echeverría, Rafael; Pizarro, Alicia. El observador y la acción humana. White paper. Newfield Consulting, 1996.

Echeverría, Rafael. A Empresa Emergente. A confiança e os caminhos da transformação. Brasília: Universa, 2001. 128p.

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